Crônicas, personagens e Vinny

Sempre gostei de prestar atenção nas letras das músicas. Confesso que sou um cara que não curte muito música instrumental por ter o defeito de não conseguir construir um sentimento com aquilo – salve algumas exceções. E, sobre as letras, as que mais gosto são aquelas que falam do cotidiano e dos personagens do dia-a-dia.

Não queria cair naquele papo do “músico cronista”, mas isso acaba sendo inevitável. E, quando falamos desse tipo de compositor, dois nomes já estão até batidos: Noel Rosa e Chico Buarque. Os dois foram de fatos grandes compositores que retrataram diversos perfis humanos em suas canções. Mas, como tenho apenas 23 anos, não dá para bancar o hipster que aprendeu a gostar com esses caras – apesar de ouví-los bastante. Então, aqui vai uma confissão: aprendi a gostar desse tipo de letra ouvindo Vinny.

Vinny - TodomundoSim, esse meu fascínio por letras sobre gente começou lá com os meus 8 ou 9 anos quando ganhei de alguém o disco Todomundo do Vinny. Esse é o disco daquele chiclete no tímpano chamado Heloísa, Mexe a Cadeira. Mas, apesar dessa música, o disco é muito bom e por incrível que pareça é rock em praticamente todo resto. O disco é tão responsa que até conta com a participação do BNegão na faixa Benedito. Para quem não acredita, ouve aí:

Ouvindo o disco agora, uns 15 anos depois, me surpreendi com a qualidade do som e fiquei muito na pilha de fazer um review, mas o foco não é esse agora. Quero falar das pessoas. Reforçando o nome do disco, todas as músicas são nomes dos personagens. Temos a famosa Heloísa, a Patricinha, o finado Lampião e até Deus entra nessa roda antropológica. Quando pequeno, me fixava tanto nessas letras que lembro de uma cena em que eu estava sentado no chão da sala ouvindo o disco e desenhando os personagens, música a música. Gostaria muito de achar esse caderno…

Acontece que hoje já não vejo mais tanto essas letras. Posso estar sendo leviano com tudo isso, mas realmente é difícil achar esse tipo de composição crônica hoje em dia. Hoje tenho a impressão que as letras são mais introspectivas e focadas no eu e, no máximo, na relação com o seu próprio círculo. Falar dos outros é fácil, mas parece que quando o assunto é compor já são outros quinhentos bem mais complicados.

Numa refletida bem rápida, hoje vejo dois caras que fazem isso no Brasil. O primeiro é o Ogi que já falei aqui no blog e o outro é o Rodrigo Campos que deve surgir em breve por aqui. O Rodrigo Campos é um cara dessa nova geração de São Paulo que curto faz um tempinho e está no seu segundo disco. Nos seus dois trabalhos (São Mateus Não É Um Lugar Assim Tão Longe e Bahia Fantástica) ele aborda bastante o cotidiano e carrega muitos personagens por entre os acordes com uma qualidade absurda. Segue uma palhinha do cara:

Sinto falta desses contos em música. Desses relatos do que aconteceu, ou não, acompanhados de um som que potencialize aquela história. Acho que essa deve ser uma tarefa árdua e por isso tenho a sensação de ter tão pouco. Acho que o que resta mesmo é acompanhar novamente os personagens de sempre… A mãe do ladrão, a torcedora apaixonada, o policial contra o bandido, o casal idoso no prédio perto do fim e por aí vai…

Ps. 1: Não consegui achar um link válido para o disco do Vinny, então, se alguém achar coloque aí nos comentários que a gente publica. Se quiser ouvir o disco, tem essa playlist no Grooveshark.

Ps. 2: O post de hoje não foi review porque ajudei o Luciano ontem e adiantei o meu post falando do disco O Deus Que Devasta Mas Também Cura do Lucas Santtana. Já leu? Gostou? Opina lá!

Uma consideração sobre “Crônicas, personagens e Vinny”

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